Arquivo paraOutubro, 2007

alguma coisa, sempre está acontecendo…

Essa semana, numa ocasiao muito inesperada, eu vi a vida quebrando a casca, como se fosse a de um ovo. Surpresa, admiração e ao mesmo tempo riso.

Enquanto eu estava sentada sozinha numa lanchonete, observava as pessoas ao redor e ocorreu a seguinte cena, a moça sentada ao lado com a família entra em trabalho de parto antes mesmo de ter tempo de olhar o cardapio.

Confusos, todos se levantam. Observo que o ultimo ao sair é um senhor, ele nao queria ir embora mas teve que ir. Talvez a sua vontade fosse comer pizza….

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Emprego aqui as palavras do Joao Cabral de Melo Neto para fugir desse absurdo.

MORTE E VIDA SEVERINA (João Cabral de Melo Neto)

“…E não há melhor respostaque o espetáculo da vida:vê-la desfiar seu fio,que também se chama vida,ver a fábrica que ela mesma,teimosamente, se fabrica,vê-la brotar como há poucoem nova vida explodida;mesmo quando é assim pequenaa explosão, como a ocorrida;mesmo quando é uma explosãocomo a de há pouco, franzina;mesmo quando é a explosãode uma vida severina.”

Seiscentos e sessenta e seis

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ªfeira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Mário Quintana

O poeta inventa viagem, retorno e morre de saudades


Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

Hilda Hilst

(1930-2004)

Um homem chamado Alfredo…

“O meu vizinho do lado Se matou de solidão. Ligou o gás, o coitado, último gás do fogão Porque ninguém o queria Ninguém lhe dava atenção Porque ninguém mais lhe abria As portas do coração Levou com ele seu louro e um gato de estimação.

Há tanta gente sozinha Que a gente mal adivinha Gente sem brilho no olhar Gente sem mão para dar Gente a que basta um olhar (quase nada)… Gente com os olhos no chão Sempre pedindo perdão Gente que a gente não vê Porque é quase nada”

Eu sempre o cumprimentava porque parecia bom “um homem por trás dos óculos” como diria Drumond e num velho papel de embrulho deixou um bilhete seu dizendo que se matava de cansado de viver Embaixo assinado “Alfredo” mas ninguém sabe de quê.

Vinicius de Moraes.

Me perdoa…

Com a mesma falta de vergonha na cara eu procurava alento no
Seu último vestígio, no território, da sua presença
Impregnando tudo tudo que Eu não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone não
São novamente quatro horas, eu ouço lixo no futuro
No presente que tritura, as sirênes que se atrasam
Pra salvar atropelados que morreram, que fugiam
Que nasciam, que perderam, que viveram tão depressa,
Tão depressa, tão depressa

E de repente o telefone toca e é você
Do outro lado me ligando, devolvendo minha insônia
Minhas bobagens, pra me lembrar que eu fui a coisa mais brega
Que pousou na tua sopa.
Me perdoa daquela expressãopré-fabricada
De tédio, tão canastrona que nunca funcionou nem funciona me perdoa a vida é doce
me perdoa a vida é doce

A vida é doce…

( Lobão)

Se perguntarem por mim.
diga que não suporto mais, cansei, que aquelas vozes soam como eco.Não vou dar risada sobre a piada repetida, que nunca achei graça.

No final tanto faz….
Talvez na proxima rodada,
mais uma dose…
Talvez embriaguez,
perca dos sentidos…
Talvez com a cara amassada,
sonhos de uma noite…
Talvez, olhando para os lados ,
eu nao me perca…
E Por olhar distraída,
eu encontre as margens…
E abandonado as margens,
nao me afogue na profundidade…
E controlando o fôlego, aprenda a mergulhar…

Talvez, nada mais…

LB

Acontece…

ACONTECE….

Esquece nosso amor vê se esquece
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que já não sei mais amar
Vai chorar vai sofrer
E você não merece
Mas isso acontece
Acontece que meu coração ficou frio
E nosso ninho de amor está vazio
Se eu ainda pudesse fingir que te amo
Ai se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo
Isso não acontece

(Cartola)
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http://almanaque.folha.uol.com.br/cartola.htm

Querido fulano,

quis escrever um poema, talvez uma carta de amor
Mas poema nunca foi meu ofício, fiquei com as idéias

Pensei em falar sobre amor, sobrou palavras
Palavras soltas, restou esse texto desconexo
Sobre um amor ausente, que partiu além do mar.

“Em sua embriaguez foi além do horizonte,
imaginando beijos entre as ondas do mar,

E no vai e vem das aguas salgadas.,
Aprendeu que o mar tem gosto de lágrimas”..

LB

Memorial de Maria Moura …

Aqui um trecho de um grande livro, Memoria de Maria Moura.

Foi um amor desesperado , furioso, que doía, machucava; amor de dois inimigos, se mordendo e se ferindo, como se quisessem que aquilo acabasse em morte (…) Quanto tempo durou?- nos separamos exaustos (…) entendia que no meio daquele desadoro , que eu tinha mesmo que matar Cirino . Entre nós dois não podia mais haver solução. Se ele escapasse vinha atrás de mim para me pegar . Não ia nunca me perdoar tinha que se vingar desta hora de humilhação. Era impossível ele esquecer. Agora era ele ou eu” ( Maria obrigava-o a ficar trancado num cubículo e ameaçava-o com uma arma). “Fiquei atirada na cama , sem poder chorar, cega , surda, vazia por dentro(…) não era dor propriamente que eu sentia , era mais um estupor que me deixava dormente , numa espécie de meia morte(…) eu pensava às vezes que estava a bem dizer igual à situação de Marialva , quando servia de alvo ao marido” (Valentim era atirador de facas , treinava, no circo) “Só que o atirador de faca acertava sempre em mim, mas sem me ferir mortalmente, só me pegando pela pele me pregando na tábua, por toda a volta do meu corpo. Escorchada e sangrando , eu ficava morrendo de dor, sem contudo morrer nunca , lamenta-se após mandar executar seu amado.

http://www.moisesneto.com.br/estudo08.html